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Reconecte-se com a sua criança interior

Psicóloga junguiana fala sobre esse arquétipo estudado por Jung, sua importância dentro de nós e como não nos distanciarmos dele.

 

Elisabete Sofia Lepera é psicoterapeuta junguiana há quase 30 anos. Da vasta experiência que construiu estudando, pesquisando e ensinando a obra do psicoterapeuta suíço (Carl Gustav Jung, 1875-1961), nesta entrevista ela fala especificamente sobre um dos temas mais valiosos criados por ele: a criança interior. Seja nos adultos seja nas crianças, ela está presente e sempre estará. Mas é fácil se desconectar dela, é quando o mundo parece cinza, a vida fica sem graça. Elisabete ensina que não precisa ser assim e mostra como podemos nos unirmos à ela novamente.

 

Por Keila Bis

 

O que é a criança interior?

Jung disse que é uma instância sagrada dentro de nós, é a nossa criança divina. Ela é um campo de possibilidades, está ligada às experiências de renascimento, da descoberta, de entusiasmo, beleza e cura. Ao longo da nossa vida, nós recorremos a ela infinitas vezes.

 

Em quais momentos, por exemplo?

Curando os temas que nos feriram na nossa infância, por exemplo, como abandono e rejeição.  Para que haja o processo de cura, precisamos nos reconectar com esse potencial de amor, curiosidade, criação e brincadeira. Na terapia da criança, há o  brincar. Na terapia do adulto, nós imaginamos. Abre-se o potencial criativo para olhar a nossa vida não como uma existência linear, mas como uma recriação simbólica dos estados que nós passamos. Todas as vezes que nos aproximamos da criança interior,  reaprendemos com ela a ver o mundo, as relações, como da primeira vez. Ela é uma potência dentro de nós. Quando se sentir desgastado ou depressivo ou quando nada lhe parecer colorido, chame esse olhar da criança interior. Teve um período que o Jung se separou de Freud (criador da psicanálise, 1856-1939) e ficou muito mal por causa da rejeição às suas ideias, de não poder ser ouvido, respeitado, então ele voltou a brincar.  Andava na beira do lago apanhando seixos e recriando as próprias brincadeiras que ele tinha na infância. Através da experiência lúdica, do contato com as imagens interiores os símbolos, da pesquisa, pelo estudo, ele configurou sua teoria. Quando não estamos bem, uma possibilidade de contato com o potencial de cura da criança interna é pelo brincar. Desenhar o que você está sentindo, explorar aspectos do seu ser na caixa de areia (sandplay) usando miniaturas, pintar, fazer colagem, escultura, modelagem, dramatização,… Algo que expresse por meio de imagens as emoções. Através dessa experiência lúdica, quem é constelado, quem é convocado dentro de todos os nossos aspectos, é a criança interior.

 

A criança interior traz quais outros aprendizados?

Curiosidade de olhar todas as coisas, de ouvir não a partir dos meus modelos pré- estabelecidos, mas do novo que ocorre no momento do encontro, voltar a sentir, redescobrir o corpo. A criança é muito sensitiva, ela olha no olho, tem um olhar sem barreiras. Nós a convocamos para ajudar com a nossa criança ferida.

 

Qual é a diferença entre criança interior e criança ferida?

A criança ferida tem a ver com a nossa história, com as vivências e situações que nos criaram trauma, tristeza, sofrimento, onde nos bloqueamos em nossa forma de nos  relacionar, em algum aspecto da vida que não conseguimos evoluir. Com o olhar da criança interior, a gente começa a se recuperar. Outubro, o mês da criança, virou algo comercial, mas é uma celebração de uma possibilidade de reolhar a vida e de nos recriar a partir do olhar da criança. Como eu faço isso? Do ponto de vista arquetípico, os ritos nos ajudam a reconectar esse potencial. A cultura é marcada por ritos, cada fase do ano celebramos simbolicamente com festas. A visão capitalista desfigurou muito os ritos, o dia das crianças se transformou basicamente em época de compras, de produtos muitas vezes caros. Mas o verdadeiro brinquedo não pode ser comprado. Ele é uma experiência lúdica, de encontro, de alegria, descoberta. Não importa o tema que você está passando, parte do brincar é a sua criação e ela está presente em tudo que fazemos: nas atividades diárias, profissões, lazer,… É quando ficamos felizes  porque estamos inteiros, de corpo, coração e alma. Toda vez que despertamos esse potencial criativo  a criança interior está lá.

 

É muito importante, então, as crianças, desde cedo serem estimuladas a brincar, a criar?

A criança divina, através da experiência lúdica, cura nossa própria criança interior que está ferida. Por isso que brincar é uma experiência simbólica de criação e resgate interior. A criança interior tem necessidade de brincar para conhecer, fazer cultura, descobrir-se em muitos níveis. Ela está ligada à essa fonte da vida, ela transforma a experiência dolorosa em algo criativo. Por exemplo: meus pais se separaram e me sinto triste, mas através do brincar experimento reparações, vou expressando e transformando meus sentimentos. Quando brincamos, o tempo se transforma. É um tempo mágico de possibilidades.

 

Hoje em dia, as crianças têm muitos afazeres, muitas atividades principalmente com a tecnologia virtual. As crianças estão brincando menos hoje ou não? Você percebe isso na sua clínica?

Eu acho que estamos num período de transição. Quando a gente está na transição, a gente não enxerga totalmente o que está nascendo e o que está se perdendo que era valioso. Eu acho que, com a tecnologia virtual (celular, tablet,…), nós ainda não nos damos conta de onde isso vai levar. O mais grave é perder o corpo. O encontro pessoal é eminentemente sensível, ele é a presença. E com a tecnologia, o que observamos é a perda desse corpo, dessa presença. No fim do ano passado, eu vi o movimento de algumas crianças em escola, através de apresentação, onde cantavam para os pais largarem o celular porque não são vistas. As crianças precisam de atenção, de afeto no contato como de alimento e fazem de tudo para receberem essa atenção. Imitam os pais para ver se são vistas. E quanto mais precoce a tecnologia substitui o contato, o que você vê são pessoas antenadas demais com uma capacidade de informação estupenda, mais a experiência afetiva passa pelo corpo, pelo afeto, pelo olho no olho, pelo tato. Por isso, o brincar tem que retomar o pé no chão, o experimentar e não ser rapidamente mental. Então, realmente é delicado. A tecnologia tem seu lugar, mas não podemos deixar de ter esse contato com a natureza, com o corpo vivido na presença de outro porque aí a gente vai ter os distúrbios referentes à essa perda.

 

Que distúrbios são esses?

Agitação, perda de concentração, ansiedades difusas. Nós, adultos, quando temos excesso de trabalho mental, temos insônia, não é um cansaço bom, pois nossa mente não desenvolveu recursos para relaxar porque não trabalhamos com outro aspecto da nossa mente, vamos muito rápido para o racional e a nossa natureza é uma parte irracional. Aí a gente tem ansiedade muito forte. A depressão na infância, por exemplo, também pode ser compreendida pelo desenvolvimento excessivo do mental em detrimento do afetivo, do emocional e a perda das possibilidades vivenciais de lidar com o tédio, por exemplo.

 

Como assim?

A gente está sempre se ocupando. Mas são importantes o tédio, o silêncio, o não fazer nada, o ócio criativo, como disse Domenico De Masi (autor do livro O Ócio Criativo, ed. Sextante): quando não temos nada a fazer é que as coisas começam a acontecer. Porque as ideias surgem, é um mental profundo, intuído, sentido e não só rápido de informação. Por exemplo, a qualidade e o tempo de leitura é diferente do que correr da tela no computador. Porque no computador você abre seis janelas para o seu tema, você tem informação rápida. Mas no livro você tem um tempo que você assimila. Outro exemplo é o fast food, o comer rápido para ganhar tempo. Não, coma devagar, sinta a folha que você mastiga. É o movimento contrário, o slow food. Não podemos prescindir das brincadeiras, dos contos de fadas porque eles nos remetem a essa ordem do imaginário, do simbólico que é quebrada quando vivemos rápido, dirigidos pela ansiedade, com excesso do racional, de cobranças.

 

O que mais pode fazer com que a criança perca o contato com a sua criança divina?

Quando ela sente algo e rapidamente recebe uma repressão, um desvalor, por exemplo. Os pais têm uma criança ideal que eles projetam na criança, não olham o ser da criança. Eles projetam os seus próprios complexos e temas na criança: “Você chora demais, você me irrita”. Mas quem é que está na sua frente? Esse comungar a presença é uma experiência muito importante. Quem tem problema com alimentação, já de início foi violado nessa energia. Foi punido, foi exigido algo que não tinha nada a ver com a natureza daquela pessoa. Por exemplo: a criança quando desmama precisa de tempo na experimentação dos sabores, o doce, o salgado, etc. Vemos, muitas vezes, a ansiedade do adulto rompendo o tempo da assimilação. Quanto tempo para andar, para tirar a fralda? A criança interna é sempre a reconexão com o corpo. Onde eu fui ferido, eu desconectei. E pela experiência de renascer da criança interior, eu me reconecto.

 

Eu fico pensando na dificuldade em se fazer essa reconexão diante de um dos grandes medos que nós, adultos, temos, como o medo de faltar dinheiro.

Porque nós, muitas vezes, vivemos de fora para dentro. Por exemplo, você vai em um hotel 5 estrelas e pode ser que não aproveite quase nada, não contatou nem as pessoas nem com a paisagem. Mas você pode, por outro lado, fazer um bate e volta na praia e aproveitar todos os momentos. O dinheiro é uma potencialidade, uma possibilidade, mas que você tem que ocupar com a sua criatividade. No geral, quando estamos conectados com a criança interior, não passamos necessidade porque somos generosos. Quando alguém é generoso, vai criando um círculo de generosidade. Você não pode viajar, mas uma amiga diz: “Vai lá em casa, vai ter pipoca, …”. Quando estamos ligados ao poder, a gente acaba não tendo o círculo da generosidade. Muita coisa nos acontece pela generosidade. A criança interior faz isso, tanto que quem é rico só se diverte se chamar os amigos. A gente sabe quando a nossa criança está presente porque ela divide, tanto que vemos quando uma criança não está bem quando ela não quer dividir, porque é natural da criança sadia querer compartilhar. Tem uma história muito legal…

 

Qual é?

Passou no Globo Repórter (programa da Rede Globo). Uma moça se tornou uma química muito importante, premiada internacionalmente, daí ela voltou para a cidade natal e começou a reunir os químicos para fazer sapatos. Perguntaram sobre sua história  e ela disse: “Eu era muito pobre, possuía um único par de sapatos que deveria durar o ano todo e tinha que andar muito para chegar à escola. Um dia, depois de tanto andar na chuva, o sapato não aguentou e arrebentou”. Quando chegou na escola, ela sofria bulling, porque remendava o sapato com plástico. Então pensou: “Eu vou dar o troco”. E o troco dela foi estudar, estudar, estudar. Ela se formou em Química e se tornou renomada, inclusive no exterior. Voltou à sua cidade natal, convocou químicos para ajudá-la em um projeto de pesquisa de sapatos resistentes. Um projeto de sapatos para todos. Ela chora na entrevista, mas ri também. Porque ela podia ter ficado machucada e dizer: “Aquela cidade nunca mais”, ou só andar com sapatos de grife ou fazer bulling igual. Isso significaria que ela continuava ferida, mas ela se recupera, é generosa. No geral, quando recuperamos a nossa criança, somos generosos, queremos trocar, fazemos a roda. Na roda ninguém é mais que o outro, na roda nos damos as mãos, estamos juntos e partilhamos a criatividade.

 

 

Elisabete Sofia Lepera, psicóloga junguiana, psicoterapeuta, é formada pela Pontífica Universidade Católica (PUC-SP), mestre em Psicologia Clínica Junguiana (PUC SP), professora de Psicologia Analítica Introdução à Clínica do no Instituto Sedes Sapientiae, na capital paulista e supervisora clínica.

 

Contato: elisabete_lepera@hotmail.com
(atende no bairro Perdizes, em São Paulo).

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